sábado, 21 de agosto de 2010

"No entanto, era precisamente assim que tinha de ser. Qualquer pessoa, para desenvolver uma actividade, seja de que género for, precisa de considerar a sua actividade como importante e boa. Por isso, qualquer que seja a situação de uma pessoa, ela formará, obrigatoriamente, um ponto de vista sobre a vida humana em geral que a levará a considerar a sua actividade importante e boa.

Pensa-se normalmente que o ladrão, o assassino, o espião, a prostituta, reconhecendo a sua profissão como má, têm vergonha dela. Na realidade, acontece precisamente o contrário. As pessoas que, pelos seus destinos e pelos seus pecados e erros, caíram numa certa situação, por mais incorrecta que seja, formam geralmente para si mesmas uma noção de vida tal que lhes permite imaginar a sua situação como boa e respeitável. Para se consolidarem neste seu ponto de vista, tais pessoas, por instinto, aderem a um círculo humano em que se reconhece como correcta a noção que formaram da vida e do seu lugar nela. Este facto espanta-nos quando se trata dos ladrões que se gabam da sua habilidade, das prostitutas que se gabam da sua depravação, dos assassinos que se vangloriam da sua crueldade. E apenas nos espantamos porque o círculo, ou o ambiente, dessa gente é limitado e , antes de mais, porque estamos fora dele. Mas será que não acontece o mesmo fenómeno entre os ricaços que se vangloriam das suas fortunas, ou seja, da pilhagem, e dos potentados que se gabam do seu poder, ou seja, da arbitrariedade? Não vemos nestas pessoas uma deturpação das noções de vida, do bem e do mal, que justifica a situação delas, apenas porque o círculo que adere a estas noções deturpadas é mais amplo e porque nós próprios fazemos parte dele."

RESSURREIÇÃO, LEV TOLSTÓI

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Na Igreja...

...a ortodoxia da verdade única subestima a caridade. Desgraçadamente, parece cada vez mais anacrónico o empenhamento de João XXIII em dar sempre primazia à convocação de Lucas: "Paz na terra aos homens de boa vontade". Este já não é esse tempo, mas sim o da verdade impositiva e peremptória: "Sem a verdade, a caridade cai no mero sentimentalismo" ou "não há, pois, senão um humanismo verdadeiro que se abre ao absoluto no reconhecimento de uma vocação que dá a ideia verdadeira da vida humana" - palavras de Bento XVI na encíclica Caritas in Veritate. O monge de Montserrat Hilari Raguer lembra, no entanto, que "no juízo universal, seremos julgados pela caridade. Os que deram de comer ao faminto e de beber ao sedento, tê-lo-ão feito só por compaixão. Não sabiam que o faziam a Cristo e muito menos que aplicavam as encíclicas".

Tirado de palombellarossa.blogspot.com

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Dissessem.

Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.

Porquê
Esperar?
- Tudo é
Sonhar.


Fernando Pessoa

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"O Iraque é um país de muitas viúvas e pouco Estado"

"Ninguém sabe quantas viúvas há no Iraque. São muitas e poucas recebem ajuda do Governo."

(...)

"Não é preciso saber quantas são as viúvas do Iraque para saber que este é um país de viúvas. Há quatro anos, no pico da violência sectária, 90 a 100 mulheres enviuvavam a cada dia. Entre 2005 e 2008, quando o Iraque parecia uma bomba humana, muitas mulheres fizeram-se explodir em atentados, como nunca antes em lugar nenhum. Dezenas eram viúvas."

(...)

"Hoje há entre um e três milhões de viúvas. Num país de 29 milhões, em que 40 por cento tem menos de 14 anos, basta saber isso para perceber que há demasiadas mulheres sozinhas com demasiados filhos para alimentar. Nas contas de Fatimah, "as mulheres são 60 por cento da população e metade são viúvas". Algumas "perderam o marido na guerra com o Irão, outras na guerra de 1991 e na revolta xiita que se seguiu, muitas nas explosões e assassínios".

A partir de um inquérito feito há dois anos, a Cruz Vermelha concluiu que entre as mulheres chefes de família em situação vulnerável só 10 por cento recebia pensão de viuvez, o que se explica pela burocracia, pela corrupção e por falta de fundos. Há um ano, a ajuda estatal chegava a 120 mil, sortudas, mas pouco: 70 mil dinares (45 euros) por mês mais 14 mil por filho não chega. Para a Cruz Vermelha, como nos explicou Hind, responsável da subdelegação de Bassorá para o programa Mulheres em Guerra, a linha de pobreza traça-se abaixo dos 230 mil dinares por mês.

Bassorá, capital do Sul desde que o Iraque é um país, já viu melhores dias. Falta peixe no Shat-al-Arab. o rio que liga a cidade ao Golfo Pérsico. Falta água. Falta trabalho. Falta electricidade. Falta tudo. Mas, como no resto do país, sobram viúvas e órfãos e há mulheres e miúdos a pedir na rua."

(...)

"Há viúvas que recebem alguns dinares do Governo e outras que não recebem nada. Algumas são prostitutas ou então aceitaram casar com um cunhado ou celebrar um contrato de casamento temporário (tradição xiita) que pode durar horas ou meses com os homens que controlam a distribuição dos fundos de ajuda."