De Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.
A ‘sp’rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha ‘s’prança,
Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.
Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças —
Mortas, porque hão de morrer.
Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.
Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
domingo, 24 de outubro de 2010
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Praxes: socializaçao ou perversão?
"Perante esta tendência inquietante, e que parece agravar-se de ano para ano, o desafio neste domínio terá de passar por uma “refundação” dos princípios da praxe, incutindo-lhes um novo sentido pedagógico, conteúdos informativos e comportamentos amigáveis e acolhedores para os recém chegados. É preciso adaptar a “tradição” às condições do presente. Os actuais rituais da praxe estudantil não são apenas a fachada da vincada hierarquia inscrita no próprio “código genético” da Universidade. Eles reflectem – pelo menos nas suas modalidades mais extremas – uma perversão de valores que perdeu autenticidade, perdeu conteúdo e perdeu sentido. A praxe corre o risco de resvalar para perigosos comportamentos anti-sociais (e obrigar à acção repressiva), caso a colectividade, a começar pelo corpo estudantil, as estruturas associativas, os grupos organizados e as instituições universitárias não saibam travar a tempo as formas “rascas” de que a mesma se vem revestindo nos últimos tempos."
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Questionamentos acerca de supostas contradições
Li há algum tempo na blogosfera uma discussão que podia ser um autêntico case study da sociologia e da teoria política. (Infelizmente, não me lembro onde, mas sei o fundamental da questão).
O contexto era uma defesa dos direitos dos homossexuais que era feita, como é de esperar, por alguém de esquerda. O argumento é rápido mas nem por isso é simples: a igualdade como "valor" - talvez o principal a ter em conta por uma sociedade.
Ora, é exactamente este mesmo argumento que faz a esquerda defender também os direitos dos imigrantes, por exemplo, os imigrantes do muçulmanos ou os ciganos que estão actualmente a ser questionados em alguns países europeus.
Neste contexto, alguém levantava uma questão parecendo ter descoberto a grande raiz do mal da esquerda numa suposta contradição: lembrava esta pessoa que num qualquer país da Europa (Holanda ou Bélgica, não tenho a certeza) era perigoso assumir a homossexualidade publicamente porque os imigrantes islâmicos os perseguiam e até matavam por fanatismo religioso.
Como conciliar então a defesa dos direitos dos homossexuais e dos muçulmanos com a preservação da sua cultura se estes dois direitos chocam tão directamente um com o outro?
O contexto era uma defesa dos direitos dos homossexuais que era feita, como é de esperar, por alguém de esquerda. O argumento é rápido mas nem por isso é simples: a igualdade como "valor" - talvez o principal a ter em conta por uma sociedade.
Ora, é exactamente este mesmo argumento que faz a esquerda defender também os direitos dos imigrantes, por exemplo, os imigrantes do muçulmanos ou os ciganos que estão actualmente a ser questionados em alguns países europeus.
Neste contexto, alguém levantava uma questão parecendo ter descoberto a grande raiz do mal da esquerda numa suposta contradição: lembrava esta pessoa que num qualquer país da Europa (Holanda ou Bélgica, não tenho a certeza) era perigoso assumir a homossexualidade publicamente porque os imigrantes islâmicos os perseguiam e até matavam por fanatismo religioso.
Como conciliar então a defesa dos direitos dos homossexuais e dos muçulmanos com a preservação da sua cultura se estes dois direitos chocam tão directamente um com o outro?
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Bastam 4 acordes :)
"A música é o tipo de arte mais perfeita: nunca revela o seu último segredo."
Oscar Wilde
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
O Sorriso de Deus...
Albino Luciani, Papa João Paulo I
N: 17/10/1912
F: 28/09/1978
Quem quiser conhecer um pouco mais sobre este extraordinário (e tantas vezes esquecido) Papa, aqui fica o link para a página na Wikipédia.
domingo, 17 de outubro de 2010
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